Um número crescente de pesquisadores estápropondo que muitas crianças, hoje em dia, simplesmente não estão tendo o sono que precisam, o que as leva a comportamentos rebeldes que imitam o TDAH.
por Ariana Eunjung Cha nO Washington Post
Leia o artigo original aqui.
Essa teoria incômoda e polêmica vem ganhando impulso nos últimos anos, com vários estudos sugerindo fortes ligações entre TDAH e a quantia, o momento e a qualidade do sono.
Numa época em que até mesmo crianças conhecem a palavra Netflix, quando as demandas de perfeccionismo se estendem a crianças em idade pré-escolar e muitos alunos do ensino fundamental fazem malabarismos para  ter várias atividades extracurriculares por dia, uma questão é se algumas crianças são tão estimuladas ou estressadas que não conseguem de dormir o máximo ou o melhor que deveriam.
Evidências crescentes sugerem que um segmento de crianças com TDAH é mal diagnosticado e, na verdade, sofre de sono insuficiente, insônia, respiração obstruída ou outro distúrbio conhecido do sono. Mas a ideia que mais põe à prova o paradigma  é que o próprio TDAH pode ser um transtorno do sono. Se correta, essa ideia poderia mudar fundamentalmente a forma como o TDAH é estudado e tratado.
 
Os últimos dados sobre este tema, apresentados neste mês na Conferência do Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia em Paris, analisaram os ritmos circadianos das pessoas – o ciclo natural de como elas dormem e acordam. Ele mostrou que os indivíduos do estudo, com TDAH, tinham níveis de melatonina hormonal que subiam 1,5 horas mais tarde, durante a noite, do que aqueles sem TDAH. Como resultado, eles adormeciam mais tarde e dormiam menos em geral, com conseqüências para outros processos corporais.
 
Quando o ritmo do dia e da noite são perturbados, explicou a pesquisadora Sandra Kooij, do Centro Médico Vrije Universiteit em Amsterdã, também são perturbados a temperatura, o movimento e a regulação das refeições. Cada mudança pode levar à falta de atenção e comportamento desobediente.
 
“Parece mais e mais que o TDAH e a insônia são dois lados da mesma moeda fisiológica e mental”, disse Kooij em sua apresentação.
 
Os problemas do sono se dividem em três categorias: sono insuficiente, insônia e respiração desordenada. Todos são comuns entre crianças pequenas. Alguns estudos estimam que sua prevalência pode atingir 20 a 40% em crianças pequenas.
 
Karen Bonuck, professora titular de medicina familiar e social da Faculdade de Medicina Albert Einstein em Nova York, é conhecida pelo trabalho realizado em um estudo com 11.000 crianças,  em 2012, publicado na revista Pediatrics. Verificou-se que as crianças com ronco, respiração bucal ou apneia (onde a respiração de uma pessoa é interrompida durante o sono) tinham 40% a 100% mais probabilidade, ​​do que as que não tinham problema para dormir, de ter um comportamento semelhante ao TDAH aos sete anos.
 
“Há muita evidência de que o sono é um fator importante no comportamento em crianças”, disse Bonuck em uma entrevista recente.
 
Estudos anteriores mostraram que cerca de 75 por cento das pessoas com TDAH apresentam distúrbios do sono e que quanto menos dormem, maiores são os sintomas. Em um artigo, cientistas mostraram que um grupo de crianças com problemas respiratórios noturnos que foram diagnosticadas com TDAH já não atendiam aos critérios diagnósticos para o transtorno depois de removerem adenóides ou amígdalas para tratar o problema do sono.
 
O recente trabalho de Bonuck, financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde, envolveu uma campanha de educação dirigida a professores, pais e filhos que usavam ursos de pelúcia e o livro clássico “Good Night, Moon” para incentivar mais o sono. Quando os pesquisadores estavam coletando dados de base, antes de qualquer intervenção, ela disse que  ficou chocada ao descobrir que yn número de crianças em idade pré-escolar ia dormir às 11h. ou mais tarde, mas tinham que estar de pé antes das 8:00 da manhã para ir para a escola Elas estavam tendo menos de nove horas de sono, consideravelmente menos do que as 10 a 13 horas que a American Academy of Pediatrics recomenda para crianças de 3 a 5 anos.
 
“Eu pensei que havia um erro”, lembrou Bonuck. “O comportamento rebelder é um grande problema nas salas de aula em nível nacional, e os sintomas da falta de sono podem parecer os sintomas do TDAH”.
 
William Pelham, especialista de longa data do TDAH, que dirige o Centro para Crianças e Famílias da Universidade Internacional da Flórida, concorda que algumas crianças são diagnosticadas como tendo TDAH quando realmente têm um problema de sono. No entanto, ele viu isso apenas em um “punhado” de casos dentre milhares.
 
O elo, ele afirma, é exagerado e o TDAH é um diagnóstico muito real e potencialmente muito grave. Cerca de 6,4 milhões de crianças, ou uma em cada 10 crianças de 4 a 17 anos no país, foram diagnosticadas com TDAH e acreditam que o diagnóstico é correto na maioria dos casos.
“O sono é um problema para qualquer coisa em que você esteja tentando medir a atenção. Mas eu não acredito que [isso] … representa a grande maioria do TDAH nos Estados Unidos”, disse ele.
Ainda assim, Pelham notou um número crescente de crianças com TDAH e problemas de sono nos últimos anos. Isso tem menos a ver com a natureza do TDAH do que com as mudanças impulsionadas pela indústria farmacêutica, disse ele.
Nos anos 80 e 90, os tratamentos mais populares eram estimulantes que agiam apenas por quatro a seis horas. A maioria das crianças agora está tomando estimulanteque duram por 12 horas, disse ele.
“Se você tem filhos que são sensíveis aos medicamentos, eles podem ficar cansados ​​só depois da meia-noite.” Então você tem um aumento de crianças ficando acordadas até tarde como resultado de uma mudança social que usa medicação de ação prolongada”, explicou. Então, para contrariar isso à noite, mais crianças estão tomando mais uma droga – “um antidepressivo, melatonina ou, Deus me livre, um antipsicótico”, disse ele.

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