Por Nelson Ascher

ÚLTIMO CAPÍTULO

O dia está de derreter metal. Vc entra na melhor sorveteria do hemisfério e pede um milkshake do seu sabor ou sabores favoritos. Eles capricham. Vc experimenta. Te vem à mente: “La gloria di colui chi tutto muove/ per l’universo penetra e risplende…” É o paraíso! Vc o sorve devagarinho. Nunca nada foi tão delicioso. Nunca nada foi tão adequadamente geladinho. E quando vc está terminando, algo começa a tomar forma no fundo do copo. Uma patinha negra. Duas. Seis. Retorcidas. Vc já parou de beber. Inclina o copo. Vê aquele ventre meio amarelado, meio translúcido, virado pra cima e, embaixo, aquela cascona preta. Agora, só porque o fim do seu milkshake não correspondeu às expectativas, será que ele deixou retroativamente de ser o melhor e mais memorável da sua vida? Do que é que vc vai se lembrar no futuro? De todos aqueles sabores fantásticos, maravilhosos? Ou daquele último e insignificante detalhezinho, seu ingrato?

Nas três linhas iniciais do último canto, Dante coloca tanto a unidade sem fronteiras do “universo” (cuja etimologia enfatiza precisamente a unidade) quanto a realidade irredutível da diferença:
A glória daquele que move todas as coisas
permeia o universo e brilha
em uma parte mais e em outra menos.

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