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Psiquiatra, Cura-te a Ti Mesmo

Por Theodore Dalrymple, no Jewish World Review.

A edição de novembro do British Journal of Psychiatry publicou uma troca de opiniões entre um psicólogo americano, John Gartner, e um psiquiatra britânico, Alex Langford, sobre a questão de se é ético para um psiquiatra diagnosticar uma figura pública a quem ele não tenha examinado pessoalmente.

Não há prêmios por adivinhar qual figura pública provocou o debate: e não teria havido nenhum debate se Hillary Clinton tivesse vencido a última eleição presidencial, assim como não houve tal debate após as vitórias de Barack Obama – embora, na verdade, praticamente a personalidade de ninguém está além do alcance ou da competência da Quinta Edição do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Americana de Psiquiatria.

Gartner argumenta que não só é permitido aos psiquiatras diagnosticar o presidente Trump, como também é obrigatório que eles o façam, e que, além disso,  eles devem fazer campanha pela sua remoção do cargo por motivos psiquiátricos ou psicológicos. “Vivemos em uma sociedade pré-fascista”, explica o psicólogo. “Se você considera o silêncio em face do crescente fascismo como antiético, então a única maneira de aderir à ética da A[associação]  A[mericana de] P [siquiatria] [ que afirma que os psiquiatras não devem diagnosticar figuras públicas que não tenham examinado pessoalmente] é se comportar de forma antiética … A Associação Psiquiátrica Alemã não disse nada durante a ascensão de Hitler. Devem ser nossos modelos morais? Como judeu, fui criado sob o mantra “Nunca mais” o que significa que é um pecado terrível ficar em silêncio diante do crescente fascismo. . . Em um esforço para evitar “envergonhar a profissão”, a APA a manchou com vergonha eterna”.

Em sua réplica as objeções de Langford a essa premissa (pode-se dizer que Langford está longe de ser um admirador de Trump, antes, pelo contrário), Gartner prossegue:

Nós estamos brincando. . . enquanto o mundo pega fogo. . . Não estamos diante de um princípio abstrato [de questão]. Estamos enfrentando uma crise concreta específica que literalmente ameaça engolir em chamas o mundo . . . Em um ano, passamos de um presidente que ganhou o Prêmio Nobel da Paz para um que ameaça, impulsivamente, iniciar uma terceira guerra mundial. . . Eu convido você a vir para os EUA por um tempo e ver se a verdade fala por si mesma. A própria verdade está sob ataque aqui. . . Dr Bandy Lee. . . propôs, seriamente, que Trump atenda aos padrões de compromisso e deva ser submetido a avaliação psiquiátrica, quer ele queira ou não. Não posso dizer que discordo. . . Eu diria que o homem está ameaçando matar um país inteiro. . . Não podemos chamar as autoridades porque o paciente homicida é as autoridades.

Entre as coisas que me surpreendem sobre a contribuição do Gartner para um dos mais conhecidos periódicos psiquiátricos do mundo, é ele não demonstra absolutamente nenhum conhecimento ou percepção imaginativa sobre o que é realmente viver em uma ditadura totalitária – apesar de sua origem judia – apesar de inúmeras biografias, livros acadêmicos e filmes que atestam e descrevem a vida sob o governo autoritário. Tal ignorância ou falta de imaginação é culpável. Para um americano comparar a vida contemporânea nos EUA, sem dúvida insatisfatória como é em muitos aspectos, a vida em uma ditadura fascista ou nazista é um ato de auto-dramatização, auto comiseração e um insulto implícito àqueles milhões que sofreram ou morreram sob o regime de ditaduras totalitárias. É perfeitamente legítimo opor-se ao governo e desprezar a pessoa do presidente; outra coisa é reivindicar jurisdição sobre se ele deve ter direito a ser presidente e se deve ser removido legalmente por uma instituição mental. Na União Soviética, os psiquiatras ocupavam o tipo de comissariado a que Gartner está apelando por enquanto. Então, quem é o verdadeiro fascista aqui?

Gartner mostra um desprezo implícito pelas instituições e pela história norte-americanas se acha que a eleição de um homem supostamente instável pode transformar seu país em uma ditadura fascista quase da noite para o dia. E se esse fosse realmente o caso, certamente seria de se esperar que um psicólogo perguntasse como surgiu tal situação sem precedentes (ele admite que é sem precedentes) ocorreu.

Langford, cada vez mais alarmado com as implicações do que o Gartner diz, retorna uma resposta: “O professor Gartner explorou a mais leve ideia em até que ponto 63 milhões votaram em um homem que dezenas descreveram como sexista, racista, abusivo, depreciativo, incompetente, preguiçoso e mentiroso … Talvez … aqueles eleitores estivessem fartos de especialistas “elitistas” tomando todas as decisões sobre seu país, e ele foi a única maneira de eles mostrarem a sua raiva?

Em outras palavras, Gartner é, por analogia com o que Karl Kraus disse sobre a psicanálise, uma causa da doença que ele pretende curar – para ser justo, uma causa menor ou manifestação da doença. Gartner acredita que as pessoas que demonstram instabilidade, raiva, paranoia, sentimentos de perseguição e confusão cognitiva são e devem ser involuntariamente autorizadoss para avaliação psiquiátrica. Sugiro que ele leia Enfermaria nº 6 de Chekhov, no qual o Dr. Ragin está comprometido com sua própria ala.

 

Theodore Dalrymple é um editor colaborador do City Journal, onde este artigo apareceu pela primeira vez, é o Dietrich Weismann Fellow no Manhattan Institute, e autor de muitos livros, incluindo Não com um Estrondo, mas um Gemido: A Política e Cultura do Declínio.

 

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